sábado, 12 de dezembro de 2015

A CASCA E A VERDADEIRA GRANDEZA (*)

Luiz Carlos Formiga


Leon Denis diz que o homem constrói a primeira cidade e, com a vida em sociedade, começa a vida moral Esta vida para ser eficaz, não pode ser isolada. Fora de seus limites, além do nascimento e da morte, vemos, numa espécie de penumbra, desenrolar-se uma multidão de existências através das quais conquistamos o pouco de saber e de qualidades que possuímos e pelos quais também conquistaremos o que nos falta: uma razão perfeita, uma ciência sem limites e um amor infinito por tudo quanto vive.
A vida isolada é a vida egoísta; a vida em comum é a vida moral, que faz nascer o direito e o dever. É na revelação das Leis Morais que reside a verdadeira grandeza do Espiritismo. Os fenômenos espíritas são um prólogo da lei moral. Embora muito imperfeitamente, comparemo-los à casca revestindo o fruto: inseparáveis em sua gestação, possuem, entretanto, um valor muito diferente.
Na sociedade encontramos ricos e pobres. Riqueza e poder são concedidos por Deus à criatura reencarnada para experimentá-la. A riqueza incita os excessos e Deus experimenta o rico pelo emprego de bens e poderes. Riqueza e poder geram paixões, que nos prendem à matéria. Difícil é  “entrar um rico no reino dos céus”. 
O rico pode se tornar egoísta, orgulhoso e insaciável. As necessidades aumentam e parece que nunca possuímos o bastante.
Uns impõem a si uma vida de misérias e privações, diante de uma nova reencarnação, objetivando suportá-las com coragem. Outros preferem experimentar as tentações da riqueza e do poder. Decidem experimentar as forças diante do vício.
Jesus recebeu críticas por alojar-se na casa de um homem poderoso e rico e por isso considerado de má vida. O Mestre quando entrou em Jericó dirigiu-se a um coletor de impostos, dizendo-lhe que se hospedaria em sua casa. Quem seria aquela pessoa, chamada Zaqueu? Como era a sua vida moral?
Leon Denis: “a vida isolada é a vida egoísta; a vida em comum é a vida moral, que faz nascer o direito e o dever.” Enfatizemos, dever e direito.
O “chefe” Zaqueu embora rico apresentava necessidades morais de estímulo para o bem e demonstrava também desejo de ser bom. Isso nos faz lembrar a professora e compositora Vilma Macedo de Souza, em “Como é bom ser bom”.
"Sentir o bem é bom! Pensar no bem é bom! Falar do bem é bom! Fazer o bem é muito bom!  Quanta alegria, a, a, a, a !  A alma irradia, a, a, a, a ! Se é de bem, a, a, a, a ! A nossa ação, a, a, a, a !  Quando o irmão sorri !  Ouço meu coração...  Que bem feliz, canta comigo, esta canção!  Como e bom...!   Como é bom ser bom. lá, laiá, lá, laiá..   Como é bom ser bom. lá, laiá, lá, laiá...  Como é bom ser bom.  Ser bom é muito bom.
Zaqueu apresentando-se diante de Jesus, contou: “Eu dou a metade dos meus bens aos pobres; e se causei mal a alguém, no que quer que seja, eu lhe retribuo em quádruplo.”  Zaqueu era normal ou fora de série?
O Espírito J.J. Rousseau é enfático: “A preocupação pelas questões morais está para ser criada; discute-se a política que examina interesses gerais, discute-se interesses privados, apaixona-se pelo ataque, ou defesa das personalidades; mas as verdades morais, o pão da alma, o pão da vida, são deixadas na poeira acumulada pelos séculos".
Leon Denis diz: “O estado social valerá o que nós valemos. Se nós somos retos, justos, esclarecidos, o Estado será grande; se somos pequenos, ignorantes e viciosos, o próprio Estado será frágil e miserável.” Portanto, o progresso social só o é possível com o progresso de cada um de nós.
Depois da crucificação de Jesus, Zaqueu recebia intuições protetoras que lhe falavam de rumos novos, bem diversos daqueles que a sociedade viciosa lhe apontava.
Sentindo na alma um vazio, por não estar aceito e trabalhando entre os militantes da Boa Nova, havia doado parte dos seus bens aos pobres, disponibilizou recursos para a sua família, distribuiu terras entre os camponeses e reservou, vida mais simples, apenas o necessário à própria manutenção, pelos primeiros tempos.
Frustrou-se pois não participou dos momentos da volta e reaparição do Cristo, após o terceiro dia. Visitava Pedro e tentou insinuar-se entre os seus discípulos, mas nem era notado. No entanto, a ressurreição do Mestre lhe havia revigorado a esperança. A ressurreição, a vida espiritual, estava nos planos de Jesus e Ele fez demonstração prática a Tomé.
Por que Jesus o escolhera?
“Não fostes vós que me escolheste, mas fui Eu que vos escolhi e vos constituí para irdes e produzirdes muito fruto e para que o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vos conceda. (Jo 15:16-17).
Por várias vezes Tomé estivera com Jesus em casa de Lázaro e, quando a notícia de sua morte chegou teve o coração dilacerado. Como suportar tamanha dor?
Jesus ressurgiu aparecendo à Madalena.
Surgiu também em recinto fechado onde sua voz ecoou:  “A paz seja convosco!” Mostrou as chagas e os discípulos encheram-se de alegria e esperança.  Mas, Tomé não estava com eles!
No dia seguinte, quando Tomé chega, é recebido com gritos de alegria:
Tomé, Tomé, Jesus voltou!
Atordoado, recebe mais uma punhalada no coração: Perdera a oportunidade de ver Jesus de novo.
 A reação foi imediata: Vocês estão loucos. Seu senso de realismo cristalizou-se e ele, então, explode:  “Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser meu dedo no lugar dos cravos e minha mão do seu lado, não crerei.”
 Jesus esperou vários dias, para que Tomé tivesse oportunidade de rememorar os três anos de ensinamentos. O seu problema era exatamente a pedra angular: a realidade espiritual, a imortalidade do espírito.
Então, no oitavo dia, Jesus apareceu no meio deles: “A paz seja convosco!”
Tomé, coração acelerado, embargado de pranto, vê Jesus se aproximar e dizer:  “Vem, Tomé, introduz aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Põe a mão do meu lado e não sejas incrédulo, mas crê”.
Um dia, Zaqueu ouviu de Saulo de Tarso sobre o colóquio na entrada de Damasco.
Aconselhado e guiado por Paulo formulou sua “linha de trabalho”. Não se limitaria à adoração inativa, que pode cristalizar-se em fanatismo.  
Não realizou milagres, mas estancou a aflição com suas palestras em torno do Mestre. Ergueu a coragem e a fé de corações desanimados.Lutou e venceu o ateísmo, recuperando almas para Deus. Renovou esperanças na alma de muitas mães desgostosas com a indiferença dos filhos, em relação à prática do bem.
Zaqueu passou a burilar a razão e a cultivar um amor infinito, por tudo e por todos. Deixara de ser um homem rico e poderoso para passar a usufruir outro tipo de riqueza e poder.(**)
Revigorou a decisão de muitos pecadores que temiam procurar o bom caminho, porque estavam envergonhados de se apresentarem a Deus, através da prece.
Não nos aprisionemos nos erros do passado. A hora é de renovação. É hora de cultivar nossas necessidades morais de estímulo ao bem e deixar eclodir um aflitivo desejo de ser bom.
Através da prece, em benefício próprio, renovemo-nos para jornadas reabilitadoras, sem sentir constrangimento ao nos colocarmos diante da Inteligência Suprema.
Lembremos que no mundo espiritual, admiráveis são todos os espíritos nobres e retos que militam com grandeza na Causa do Bem. Entretanto, não menos admiráveis são todos aqueles que se reconhecem frágeis e imperfeitos, caindo e erguendo-se, muitas vezes, nas trilhas da existência, sob críticas e censuras, mas sempre resistindo à tentação do desânimo, sem desistirem de trabalhar.

(*) Texto composto com frases de: No Invisível; Depois da Morte; O Livro dos Espíritos;
O Livro dos Médiuns; Ressurreição e Vida.
(**) Admiráveis e poderosos
Admirables y poderosos




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